sexta-feira, 15 de abril de 2011

A galinha afetuosa


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Abismo de rosas,

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"Gentil galinha, cheia de instintos maternais, encontrou um ovo de regular tamanho e espalmou as asas sobre ele, aquecendo-o carinhosamente.


De quando em quando, beijava-o enternecida. Se saía a buscar alimento, voltava apressada, para que lhe não faltasse calor vitalizante.


E pensava, garbosa: - Será meu pintainho! Será meu filho! Em formosa manhã de céu claro, notou que o filhotinho nascia, robusto.


Criou-o, com todos os cuidados.


No entanto, em dourado crepúsculo de verão, viu-o fugir pelas águas de um lago, sobre as quais deslizava contente.


Chamou-o, como louca, mas não obteve resposta. O bichinho era um pato arisco e fujão.


A galinha, desalentada por haver chocado um ovo que lhe não pertencia à família, voltou muito triste, ao velho poleiro; todavia, decorrido algum tempo e encontrando outro ovo, repetiu a experiência.


Nova criaturinha frágil veio à luz. Protegeu-a, com ternura, dedicou-se ao filho com todas as forças, mas, em breve, reparou que não era um pintainho qual fora, ela mesma, na infância. Tratava-se dum corvo esperto que a deixou em doloroso abatimento, voando a pleno céu, para juntar-se aos escuros bandos de aves iguais a ele.


A desventurada mãe sofreu muitíssimo. Entretanto, embora resolvida a viver só, foi surpreendida, certo dia, por outro ovo, de delicada feição.


Recapitulou as esperanças maternas e chocou-o. Dentro em pouco, o filhote surgia. A galinha afagou-o, feliz, e com o transcurso de algumas semanas, observou que o filho já crescido perseguia ratos à sombra.


Durante o dia, dava mostras de perturbado e cego; no entanto, em se fazendo a treva, exibia olhos coruscantes que a amedrontavam. Em noite mais escura, fugiu para uma torre muito alta e não mais voltou.


Era uma coruja nova, sedenta de aventuras. A abnegada mãe chorou amargamente.


Porém, encontrando outro ovo, buscou ampará-lo. Aninhou-se, aqueceu-o e, findos trinta dias, veio à luz corpulento filhote.


A galinha ajudou-o como pôde, mas, em breve, o filho revelou crescimento descomunal. Passou a mirá-la de alto a baixo. Fez-se superior e desconheceu-a. Era um pavãozinho orgulhoso que chegou mesmo a maltratá-la.


A carinhosa ave, dessa vez, desesperou em definitivo. Saiu do galinheiro gritando e dispunha-se a cair nas águas de rio próximo, em sinal de protesto contra o destino, quando grande galinha mais velha a abordou, curiosa, a indagar dos motivos que a segregavam em tamanha dor.


A mísera respondeu, historiando o próprio caso.


A irmã experiente estampou no olhar linda expressão de complacência e considerou, cacarejando:


- Que é isto, amiga? Não desespere. A obra do mundo é de Deus, nosso Pai. Há ovos de gansos, perus, marrecos, andorinhas e até de sapos e serpentes, tanto quanto existem nossos próprios ovos.


Continue chocando e ajudando em nome do Poder Criador; entretanto, não se prenda aos resultados do serviço que pertencem a Ele e não a nós, mesmo porque a escada para o Céu é infinita e os degraus são diferentes.


Não podemos obrigar os outros a serem iguais a nós, mas é possível auxiliar a todos, de acordo com as nossas possibilidades.


Entendeu?


A galinha sofredora aceitou o argumento, resignou-se e voltou, mais calma, ao grande parque avícola a que se filiava.




O caminho humano estende-se, repleto de dramas iguais a este.


Temos filhos, irmãos e parentes diversos que de modo algum se afinam com as nossas tendências e sentimentos.


Trazem consigo inibições e particularidades de outras vidas que não podemos eliminar de pronto. Estimaríamos que nos dessem compreensão e carinho, mas permanecem imantados a outras pessoas e situações, com as quais assumiram inadiáveis compromissos.


De outras vezes, respiram noutros climas evolutivos.


Não nos aflijamos, porém.


A cada criatura pertence à claridade ou a sombra, a alegria ou a tristeza do degrau em que se colocou.


Amemos sem o egoísmo da posse e sem qualquer propósito de recompensa, convencidos de que Deus fará o resto.


(Francisco Cândido Xavier por Neio Lúcio. in: Alvorada Cristã)

Um comentário:

SDaVeiga disse...

Abriu os meus olhos, esta fábula.
Não podemos ser todos iguais, pelo que cabe às Mães ajudar a crescer para o destino.
Lindo.
Obrigada Rita!